Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

‘Um Lugar ao Sol’ reproduz situações reais de relações abusivas

Danilo Grangheia e Renata Gaspar em cena que ilustra relação abusiva na novela 'Um Lugar ao Sol' / Reprodução

CENA 1

O marido proíbe a mulher de ir a um jantar bacana. Ela flagra uma mensagem de outra no celular dele, dando conta de que esqueceu uma “calcinha” no táxi dele. A esposa cerceada então resolve topar o jantar, ocasião em família, nada que possa conspirar contra a monogamia que ele parece ter ferido. Contraria o macho, que aparece no meio da refeição no restaurante, apronta escândalo e quase arranca a visão dela com um safanão que lhe descola a retina de um olho.

Corta.

CENA 2

A irmã lhe cobra um fim para aquela relação evidentemente abusiva: ele quase a deixou cega de um olho. Ela jura que sabe o que está fazendo, mas não pode deixar a metade de sua casa para ele. Ela acaba voltando para o lar em comum com o agressor, é agraciada com um bicho de pelúcia como sinônimo de perdão. Resiste. Ele então diz que não a merece, lamenta por não poder lhe dar o que ela quer e merece. E em um gesto dramático, arremessa a mão contra uma vidraça, ferindo-se.

Invertem-se os papéis. Ele vira a vítima e ela se põe a consolá-lo. Transam.

Isso tem nome. Mais do que manipulação masculina, é relação abusiva, e está presente em 9 entre 10 pares –se a proporção não for maior, ouso dizer. A cena fez parte de “Um Lugar ao Sol”, novela de Lícia Manzo, no ar às 21h20 pela Globo, e foi protagonizada por Renata Gaspar e Danilo Grangheia.

Com o episódio, Lícia Manzo levanta mais uma lebre muito relevante para confrontar o telespectador, seja ele homem ou mulher, com cenas rotineiras de seu cotidiano. É evidente que a plateia feminina há de reconhecer nesse espelho um erro que o target masculino demora mais a notar como um problema seu. Donos de uma autoestima que falta às mulheres desde a sua criação, eles de fato têm muito mais dificuldade em se perceber como agentes da ação.

De toda forma, é pertinente que as mulheres vejam nessa sequência a habilidade de quem se aproveita de seu sentimento nato de culpa. E os riscos que se escondem sob situações como esta, como alerta a irmã dela, Érica (Fernanda de Freitas), são recados com status de advertências, a ponto de Stefanie ser convocada a entender se sua vida vale mais que a casa cuja metade ela reivindica.

Ainda que o marido não tivesse lhe agredido fisicamente, é notória a recorrêndia dos machos que trabalham com uma manipulação discursiva para inverter situações em que eles devem desculpas, mas acabam cobrando o perdão de suas parceiras, que, não raro, caem nessa cilada.

É disso que estamos falando e é isso que agride, psíquica ou fisicamente, 99 entre 100 mulheres dia a dia neste país. Estejamos atentas –e atentos, vale dizer, àqueles que têm interesse em evoluir como ser humano.

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Cristina Padiglione

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