Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Tudo em ‘Irmandade’ leva ao PCC, embora produtores neguem inspiração

Naruna Costa e Seu Jorge na nova série da Netflix, primeira produzida pela O2 Films/Divulgação

Não pega bem dizer que uma facção criminosa inspira uma produção de investimento profissional na maior plataforma de streaming do mundo, mas “Irmandade”, primeira série produzida pela O2 Films para a Netflix, é puro PCC, o Primeiro Comando da Capital.

A sigla vem sendo evitada há anos por vários veículos de imprensa, a começar pelo de maior alcance deles, a Globo, que informa sobre suas ações como se falasse de Lord Voldemort (“você sabe quem”). Se não se deve mencionar PCC nem nos telejornais, sob o pretexto de frear a popularização e glamurização do movimento, imagine fazer disso um enredo cinematográfico?

O fato é que a série protagonizada por Naruna Costa e Seu Jorge, sob direção de Pedro Morelli, tem em 1994 seu eixo central. Dois anos antes, na vida real, acontecia o maior massacre de detentos da história do país em uma penitenciária, com os 111 mortos do Carandiru, chacina apontada como célula de origem do Primeiro Comando da Capital.

Os contextos são muito semelhantes e, embora “isso a Globo não mostre”, sem expressar as letrinhas “P”, “C” e “C”, a Irmandade, assim como “você sabe quem”, é também uma “facção que comanda o crime de dentro e de fora dos presídios”, como define a emissora.

Seu Jorge é Edson, e Naruna, Cristina, a irmã que ele não via fazia 20 anos, flagrada em uma falsificação que a coloca como refém da polícia para trabalhar contra o próprio irmão, chefe que comanda a facção de dentro da cadeia.

A produção foi toda rodada na ala desativada de um presídio em Curitiba e testemunhada pelos detentos das alas em funcionamento, que de suas janelinhas podiam flagrar a ficção rodada debaixo de seus narizes. Todos os dias, ao chegarem para filmar, os profissionais da equipe, incluindo elenco, eram submetidos aos mesmos procedimentos de revista que os visitantes dos detentos, sem falar que telefone celular por ali não oferece sinal algum a partir de um raio de 500 metros.

Lee Taylor, que faz um dos integrantes da facção, citou em entrevista coletiva o quanto essa proximidade com detentos reais contribuiu para que os atores capturassem a atmosfera desejada para a história.

Do texto à edição final, a série é o produto mais bem acabado que a Netflix já realizou no Brasil, onde alguns dos enredos são muito bons, mas denunciam, na tela, o baixo orçamento de suas realizações. Isso não alva “Irmandade”  de alguns tropeços. Nos anos 90, por exemplo, não havia roubo de caixas eletrônicos, crime citado pela advogada Cristina ao tratar da libertação de dois integrantes da facção.

A verossimilhança, no entanto, se faz presente no conjunto da obra, em especial pela evidente preparação dos atores, todos bem situados no contexto apresentado. O cast conta ainda com Hermila Guedes, Pedro Wagner, Danilo Grangheia, Wesley Guimarães e Natália Lage.

Convém destacar a boa oportunidade que “Irmandade” sabe aproveitar na valorização de atores negros, que têm felizmente ganhado espaço em proporção nunca antes vista nas nossas telas. Entre os brancos, merece atenção o trabalho do ótimo Pedro Wagner, o Carniça, que já impressionou em “Justiça”, boa série da Globo, e em “Treze Dias Longe do Sol”, da mesma O2 Films, também para a Globo.

Vale  fita.

E vale a reflexão, principalmente para quem vê cadeia como solução na necessidade de frear a criminalidade, sem se dar conta de que o sujeito que furta um chocolate no mercado se torna, quando preso, um potencial soldadinho para ampliar um exército capaz de ordenar atrocidades impensáveis.

São oito episódios de uma hora cada, alcançando 190 países. O primeiro pode ser visto por não assinantes até 22 de novembro, aperitivo para capturar novos assinantes para a plataforma.

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Cristina Padiglione

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