Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

‘Tá no Ar’ riu de si até na despedida, com clipe emocionante

O elenco do humorístico pega a pipoca para a edição derradeira /Reprodução

O elenco se vendeu como político em propaganda eleitoral – menos o Welder Rodrigues, que tem emprego garantido no “Zorra”.

Marcelo Adnet enumerou suas habilidades, e disse que pode até fazer de novo “O Dentista Mascarado”, série que marcou sua estreia na Globo e foi altamente apedrejada pela crítica, sem cativar a audiência.

A última edição do “Tá no Ar”, programa semanal que tomou três meses por ano da Globo nos últimos seis anos, foi ao ar nesta terça, endossando o quanto é valioso saber rir de si e deixando um certo temor: será que o projeto agora em criação para substitui-lo será tão bom ou melhor do que este?

Mesmo com uma equipe de redatores e elenco tão bons, infra-estrutura e plateia, não é fácil acertar a mão na receita final de um humorístico que se pretende inovador e foge de fórmulas prontas. Afinal, é só por isso que estão encerrando o “Tá no Ar: A TV na TV”: para buscar ideias novas.

Em décadas, tivemos poucas renovações do ciclo de humor na TV e alguns esgotamentos. O “Pânico” veio do rádio, aconteceu na TV e lá murchou, voltando para o rádio. O “TV Pirata” havia sido o último grande sopro nesse segmento e se ramificou no “Casseta & Planeta” que foi perdendo o melhor daquele DNA. Veio Porta dos Fundos na internet e derrubou vários tabus. Tivemos um “CQC” (aliás, homenageado na edição final do “Tá No Ar”), a “Escolinha” revisitada com os herdeiros de Chico Anysio e Lúcio Mauro, e um “Zorra” afiado e afinado com o noticiário político. A iniciativa mais recente do riso na TV é um filhotinho do “Tá no Ar”, da turma de Marcius Melhem, por meio do quadro “Isso a Globo não Mostra”, pelo “Fantástico”.

Entre os anos finais de Casseta, é bom lembrar, e ainda antes da explosão do Porta, tivemos o super laboratório da velha MTV Brasil, de onde vieram Adnet e Tatá Werneck, titular do melhor talk show da TV atualmente, migrado da TV paga para a TV aberta.

Vá lá, há boas razões para acreditar que há material humano de sobra trabalhando no próximo projeto. Mas medo de perder o “Tá no Ar” dá. Vamos sentir falta de Tony Karlakian e sua ostentação, do Jorge Bevilaqua e sua foca, das paródias do Gugu, do Silvio Santos e do Bolsonaro, para dizer o mínimo. Sair da zona de conforto, no entanto, não é para os fracos.

Alguns dos melhores momentos foram revisitados na última edição, com flashes rápidos, característica do próprio humorístico, fazendo desta uma edição histórica. O programa foi aberto com uma paródia de “Vai Passar”, de Chico Buarque, a quem Adnet já homenageou algumas vezes. Lá estavam a propaganda do Branco no Brasil, genial, o samba-enredo que apontava as relações do carnaval com o jogo do bicho, um trechinho do clipe sobre spoilers de série, que bombou na internet, e tantas outras criações memoráveis.

No clipe de abertura de “Vai Passar”, antecedidos pela despedida de Fátima Bernardes no “Jornal Nacional”, foram lembrados os finais de programas e novelas, como o já citado “CQC”, a banana de Reginaldo Faria em “Vale Tudo”, a última entrevista do “Programa do Jô”, com Ziraldo, Carminha/Adriana Esteves no lixão no final de “Avenida Brasil”, a final da Copa de 94, Ayrton Senna no pódio, o fim de “O Rei do Gado”, o fim de “A Grande Família”, um flash de Hebe Camargo, Pedro Bial reportando o fim do Muro de Berlim e uma sucessão de momentos capazes de afetar deliciosamente a nossa memória afetiva.

Foi bonita a festa, pá.

A letra aproveita para alfinetar justamente emissoras que não têm coragem de mexer em times vencedores, ao citar que “tem canal que ainda passa o ‘Pica-pau'”.

Reproduzo a letra a seguir, uma homenagem aos finais históricos da TV.

“Vai passar, a saideira hoje Tá no Ar
Todo último capítulo, mais cedo ou mais tarde, algum dia vai ter que chegar
Pra ficar talvez marcado como alguns finais
O ano só vai terminar de vez se o rei cantar em seus especiais
Não lembro como acabou ‘Tarcísio e Glória’
Mas ‘Vale Tudo’ eu guardo na memória, teve banana e aviões
Eu via a Xuxa entrar na nave colorida
Chorei quando acabou ‘Fera Ferida’, quantos mocinhos e vilões
Carminha foi pro lixão e alegrou a gente
Me emocionei com o final de ‘Friends’ e ‘Titanic’ foi demais
Até o Bial deixou um dia o ‘BBB’ pra trás
E tem canal que quem diria, ainda passa o Pica-Pau, o Pica-Pau, o Pica-Pau
Vai rolar
Chacrinha eternamente confundindo
Do Jô Soares continuo rindo
E o Chico sempre vai ensinar
Pra que lamentar?
Foram seis anos de programa no ar
A gente quer deixar saudades
Até o viva reprisar
Se um programa sai da TV
Certamente um outro virá
E agora nosso episódio final vai passar
Se um programa sai da TV
Certamente um outro virá
E agora nosso episódio ‘Tá no Ar’

 

 

O programa está disponível no GloboPlay e vale a pena ser visto (há conteúdos abertos também a não assinantes).

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Cristina Padiglione

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