Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Sem planos para o ‘Fora de Hora’ e o ‘Zorra’ em 2021, humor da Globo murcha

Adnet como o capitão que dá uma gera na Vila do Chaves. Foto: Reprodução

Pela primeira vez em sete anos, a Globo não tem nenhum projeto de humor consistente para o calendário seguinte, e não venham por favor botar mais este buraco na conta da Covid-19.

O “Fora de Hora”, projeto criado para suceder o “Tá no Ar” neste ano, nem chegou a cumprir sua primeira temporada (aí sim, em razão da pandemia), mas enquanto esteve no ar, tampouco mostrou fazer diferença no repertório de piadas e reflexões do público, como conseguia o seu antecessor. Mesmo após as restrições trazidas pelo novo coronavírus, a equipe bravamente tentou manter a produção de conteúdo por meio de podcasts, e até obteve algum retorno relevante de audiência.

Não há, no entanto, qualquer sinal de retomada para o título no ano que vem.

Nem o Zorra, que abandonou a palavra “Total” para explorar um humor de teor político, social e comportamental, dispensando as caricaturas sexistas de seu antecessor, tem planejamento para 2021 até agora, e já era hora de se pensar no que será o calendário seguinte.

Após a saída de Marcius Melhem da chefia do núcleo, fato ocorrido em meio a denúncias de assédio moral, a emissora reorganizou a coordenação da área, mas não nomeou um novo responsável pelo riso, cujos projetos ficam agora alinhados a outros departamentos da Globo, e muitas vezes perdidos nesse vácuo.

É cedo para avaliar se o novo modelo vem prejudicando o andamento de ideias, mas já é certo que nem todas as lacunas se justificam pelo corte de gastos e restrições impostas pela pandemia. O quadro “Isso a Globo não Mostra”, do Fantástico, que expôs a louvável capacidade de rir de si, seria algo perfeitamente possível de ser realizado no cenário atual.

Mais do que isso, no momento em que a Globo é apedrejada por militantes que esperam ver propaganda de seu malvado favorito no lugar de jornalismo profissional, a seção valeria como ponto de defesa da emissora, apenas pela mera capacidade de debochar de críticos adeptos ao fanatismo.

Perde grande oportunidade, a Globo, em mandar recolher as armas do riso.

Nesse período, Marcelo Adnet manteve o avanço conquistado pelo “Tá no Ar”, criado com participação dele, ao lado de Melhem e Maurício Farias, no ótimo “Sinta-se em Casa”, mas tratava-se de uma produção restrita ao GloboPlay, no máximo com respingos nas manhãs do Encontro, algo bem distante da vitrine do horário nobre.

A Globo não aprendeu a ousar com esse time, é sempre bom lembrar e recordar que as coisas já foram muito bacanas em outros tempos, tornando depois a sucumbirem a pressões externas.

Depois de Chico Anysio , Jô Soares e tantos personagens capazes de incomodar os políticos desta nação, tivemos a repaginada de grande fôlego trazida pelo “TV Pirata” no momento da redemocratização (1988), sob nova Constituição, inovando o escárnio comportamental. Aquele espírito foi perpetuado pouco depois por seus redatores na forma do “Casseta & Planeta”, que foi perdendo o viço ao longo dos anos, até acumular uma extensa lista de personalidades e territórios internamente blindados ao deboche pela direção da empresa.

O “Tá no Ar” reativou a capacidade de rir de anunciantes, de citar gente da concorrência e cutucar a hipocrisia dos conservadores, como fez o “TV Pirata” e o próprio “Casseta” até o fim dos anos 1990. É exatamente esse teor que vem perdendo espaço na TV aberta agora.

Tomara que seja tudo uma circunstância de Covid e que a tão esperada vacina nos traga de volta o escracho que o Porta dos Fundos, graças ao seu sucesso na internet, mostrou ser possível para um público de massa. Mesmo do ponto de vista financeiro, convém observar que as produções do Porta são bem acabadas, mas primam pelo roteiro, sem produção megalômana de altos custos.

Tomara que a vacina contra gabinete do ódio e afins se imponha e não demore mais que a outra. Há um preço a pagar pelo deboche? Há. Mas desde que o escracho tenha o poder como alvo, em favor do coletivo fragilizado, não tem erro. O valor agregado à imagem de um produto que usa o riso como remédio contra atrasos sociais recompensa apostas bem elaboradas.

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Cristina Padiglione

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