Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Permita-se ser afetado por ‘Onde Está o Meu Coração’: vale a pena

Amanda (Letícia Colin) em cena do 1º episódio / Reprodução

Embora eu tenha me encantado pelos cinco primeiros episódios de “Onde Está o Meu Coração”, outras obrigações –inclusive a de ver outras produções– me levaram a ir adiando a vontade de assistir àquele enredo até o fim. Só agora, mais de dois meses após o lançamento da história criada por George Moura e Sérgio Goldenberg, consegui retomar os capítulos e encontrar a tão prometida redenção de que os criadores me falaram em entrevista, pouco antes da estreia.

Já escrevi sobre a série naquela ocasião, mas era um texto mais focado na conversa com a dupla. Volto a falar do “Coração” agora pela necessidade de expressar que valeu muito a pena ter chegado ao final deste trabalho e do espetáculo apresentado por texto, direção (Luísa Lima) e pela atuação de um elenco muito afiado, onde se sobressaem as performances de Letícia Colin e Mariana Lima –não por acaso, filha e mãe, a mãe que não desiste da sua menina nem nos seus piores dias na Cracolândia.

A atuação de Fábio Assunção, que mergulha em um tema caro para o seu histórico de superação, vai se desenhando em um tom crescente, igualmente visceral. O aparente sujeito pragmático do primeiro episódio vai revelando sua complexidade devagar e sempre, em camadas que tomam o espectador de assalto.

Em uma história que tem a dependência química como eixo, algo que mexe profundamente com plateias do mundo todo, a qualquer tempo e em qualquer lugar, cabe observar como os autores inserem em diálogos tão curtos informações capazes de consumir dias de reflexão do espectador.

Ouso dizer que há pensamentos com potencial para serem levados para uma vida toda, ideias em condições de mudar a maneira de você pensar e agir, ou mesmo de lhe trazer dúvidas antes inexistentes, o que é fascinante para uma narrativa.

As grandes provocações ao pensamento da plateia aparecem muitas vezes num piscar de olhos, em breves cenas, com uma síntese de louvável competência.

Por isso, não veja a série do GloboPlay como quem vê TV: não se permita ser interrompido por telefonemas, campainhas ou gente desavisada que entra na sala comentando se vai chover ou quem ganhou o jogo. Pause, se preciso for. Ouça. Abra os olhos. Cada diálogo tem o poder de mexer com as mais profundas convicções do espectador.

A direção de Luísa Lima confere uma delicadeza extra a um texto muito bem esculpido, cirúrgico (e aí não vai nenhum trocadilho com o ofício de Amanda/Colin e Davi/Assunção, ambos médicos).

Não há palavras ou frames desperdiçados, mesmo nas sequências de sexo. Os diretores homens que me perdoem, mas só uma mulher poderia explorar os ângulos que Luísa alcança nas relações ali exibidas.

A direção busca ainda pontos de vista que fogem do olhar horizontal que nos guia na vida real, levando-nos a enxergar determinados cenários e sequências de cima para baixo. A câmera posicionada acima dos atores, em mais de uma ocasião, empresta ao espectador uma visão flagrante, de quem assiste a tudo sem ser visto por aquelas figuras.

A produção foi toda filmada em locações, o que faz de São Paulo uma personagem do enredo, sem abrir mão da dura poesia concreta de suas esquinas, focalizando o caos dos usuários de crack, mas também sublinhando a bela arquitetura da cidade, com conhecimento para desviar o foco dos manjados cartões-postais.

A trilha sonora, incidental ou não, conspira o tempo todo a favor da nossa comoção e pontua cada etapa do calvário cumprido pela protagonista.

Ave, Letícia.

Para além de não julgar os dependentes químicos e levar o crack à esfera de uma classe média alta como a de Amanda e Miguel, o marido (Daniel Oliveira), os autores surpreendem a plateia episódio após episódio, até o 10º e último capítulo desta safra, que pode bem ter continuação em uma nova temporada.

Se você ainda não viu, prepare o lenço, mas também a chance de se envolver com aquele enredo, a ponto de se teletransportar para o drama de seus personagens.

E quando digo que vale a pena se permitir ser afetado pela obra, o termo também remete à alta concentração de afeto que move essa história na sua essência.

 

  • Onde Está o Meu Coração
    Disponível para assinantes no GloboPlay, em 10 episódios
    Com: Letícia Colin, Mariana Lima, Fábio Assunção, Daniel Oliveira, Manu Morelli, Camila Márdilla, Bárbara Colen, Michel Melamed, Rodrigo Garcia e Antonio Benício
    De George Moura e Sérgio Goldenberg
    Direção-artística: Luísa Lima

 

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