Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
Minha novela

Do Beco à Rocinha: após pausa para respiro do público, novela volta a se assemelhar ao ‘JN’

Bibi (Juliana Paes) e Silvana (Lilia Cabral) em 'A Força do Querer'. Foto de Estevam Avelar/Divulgação

Após vários capítulos de tensão crescente no Morro do Beco, cenário que passou a ocupar cada vez mais espaço na novela das 9 da Globo, Bibi (Juliana Paes) foge da polícia vestida gari no capítulo desta terça em “A Força do Querer”. A ex-estudante de direito, que se tornou figura de responsa no morro, pela performance do marido, Rubinho (Emílio Dantas) como um dos chefes do tráfico, pede esconderijo na casa de Silvana (Lília Cabral), que ficou lhe devendo favor ao ser liberada por ela de uma mesa de jogo comandada por bandido.

Ficção? Nem tanto. Pouco antes do folhetim de Glória Perez, temos assistido a cenas de tiroteios pesadas e à intervenção do Exército na favela da Rocinha, em razão da disputa pelo comando do tráfico. No caso da novela, a guerra ainda está restrita entre bandidos e polícia, sem duelo pelo posto do poderoso Sabiá (Jonathan Azevedo), mas o desfile de armas de grosso calibre e o festival de tiroteios (em parte conquistado pelo fim do vínculo entre horário e classificação indicativa na TV aberta) faz com que o público novamente já não saiba onde termina o “Jornal Nacional” e onde começa a novela. Ah, sim, sabemos que a novela é novela quando a farda policial aparece nos contornos da bela Paola Oliveira, vá lá.

O que intriga é o seguinte: há dois anos, quando “Babilônia” patinou na audiência e “A Regra do Jogo” também teve dificuldade em levantar os índices do horário, a direção da Globo identificou que havia uma reincidência do tema favela em novelas  do horário – e repare que as comunidades dessas duas tramas, assim como de “Império”, antecessora de “Babilônia”, eram infinitamente mais pacíficas que a do Morro do Beco. Isso, somado à presença do realismo contemporâneo urbano na ficção, estaria causando no telespectador um certo cansaço por suas semelhanças com o “Jornal Nacional”. Àquela altura, a concorrência bíblica da Record mostrava um cenário muito distante da realidade, pincelado pelo maniqueísmo entre os seguidores de Moisés e os seus adversários, em “Os Dez Mandamentos”.

Com essa análise em mãos, a direção da Globo transformou “Velho Chico”, de novela das seis em novela das nove, espaço em que o público supostamente buscava um respiro, novos ares, outro cenário. É verdade que a trama rural fez melhor audiência que suas duas antecessoras e sua sucessora (“A Lei do Amor”, de novo apegada ao realismo urbano contemporâneo), mas como se explica, agora, o sucesso retumbante de “A Força do Querer”, em tão curto espaço de tempo para análises tão contraditórias?

Resumo da ópera: os noticiários estão bombando em audiência quando as histórias fogem do óbvio, e todo dia elas têm fugido, surpreendendo o brasileiro com tramas incansavelmente inéditas. Na ficção, vale o mesmo: urbana ou rural, contemporânea ou de época, o que vale é a força dos personagens e o empenho por uma narrativa que alcance os anseios do público. Assim como João Emanuel Carneiro (“A Regra do Jogo” e “Avenida Brasil”), creio que não se deve dar à audiência exatamente tudo o que ela quer e como quer. É preciso aguçar na plateia o apetite por novos elementos e enredos. Mas, se a questão é observar puramente o comportamento da audiência por meio de números e cliques, podemos dizer que ninguém se importa em ver na novela uma trama parecida com a do noticiário, contanto que o ernedo agarre a atenção da plateia.

 

A fuga de Bibi, no capítulo desta terça:
Nonato (Silvero Pereira) é quem abre a porta para Bibi e logo avisa Silvana que o “rato” voltou a aparecer. Eurico (Humberto Martins) ouve e fica intrigado. “Não mandaram dedetizar? Silvana!”, reage. Dantas (Edson Celulari) também está na casa, mas não desconfia de nada. “É uma obra no vizinho”, despista Nonato, enquanto Silvana diz que vai dar conta da situação.

Dita (Karla Karenina) tenta fazer Eurico ir logo para a empresa e, assim que ele volta para a sala com sua pasta, Dantas comenta a notícia que acabou de ler no celular. “Viu essa? Bibi está sendo procurada pela polícia!”. “O que é que ela fez agora?”, pergunta Eurico, surpreso. “Assalto à mão armada! Roubou uma roupa de gari pra fugir da invasão!”, conta Dantas, indignado. “Aquela Bibi, hein? Que boa bisca! Do que é que o Caio se livrou!”, critica o empresário, antes de sair, sem imaginar que Bibi está escondida em sua casa pela segunda vez.    

No quarto de Silvana, Bibi pede uma roupa emprestada e a arquiteta tenta fazê-la desistir de ficar lá, alegando preocupação de que a família descubra. “Você sabe esconder as coisas, Silvana! É melhor nisso que eu! Preciso usar um telefone, o meu deve estar grampeado, cadê o seu?, pede, e liga para Aurora (Elizangela) para avisar que está bem, mas sem entregar onde se escondeu. 

Dita também fica bastante tensa com a situação e entra no quarto para alertar que Simone (Juliana Paiva) não deve demorar a voltar  para casa. “Vou ficar no teu quarto. Se preocupem não que eu já sei o caminho!”, avisa Bibi, deixando Dita irritada. Algumas horas se passam e Silvana fica ainda mais nervosa. “Ai, Dita! O prazo do agiota chegando… eu tinha um jogo hoje… um lugar onde eu ganho sempre… e fico presa aqui!”, desabafa. Até que resolve ir até a cozinha perguntar a Bibi se ela já está indo embora. Bibi explica que ainda precisa ficar mais e garante que não vai aparecer para ninguém. “É, mas você tem uma arma. Eu vi!”, questiona Silvana. “E você acha que eu ia atirar em alguém?”, defende-se. “Se vissem você, se ameaçassem você, não ia?”, argumenta a arquiteta, mas a ex-estudante de Direito garante que sua essência ainda é a mesma, apesar de tudo o que viveu. As duas conversam, e Bibi chega a se emocionar falando das escolhas que precisou fazer. Silvana se identifica com as questões de Bibi e pergunta como ela irá sair de lá. “Você vai me tirar!”, diz, categórica. “Eu?” reage a arquiteta, entrando em desespero.

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Cristina Padiglione

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