Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

‘Aquela coisa escravagista ainda está nas costas da gente’: Milton Gonçalves, 84

Do time de fundadores da Globo, Milton Gonçalves, 84, está na casa desde 1965, com carteira assinada. Foto: João Cotta/Divulgação

De volta à tela na próxima novela das sete, “O Tempo Não Para”, de Mario Teixeira, Milton Gonçalves vive Eliseu, um catador de material reciclado que circula por São Paulo puxando sua grande carroça. A cena é um espanto para Dom Sabino (Edson Celulari), patriarca da família que ficou congelada por 132 anos e se surpreende que a escravidão tenha acabado e um homem ainda seja visto nessas condições. como um homem pode ser visto nessas condições, para o espanto de Dom Sabino (Edson Celulari).

Durante o evento de lançamento do folhetim no Museu do Amanhã, no Rio, o ator conversou com o TelePadi sobre o peso que a escravidão ainda tem sobre a atual geração. Conta que já foi humilhado por ser negro, protesta contra a inércia do brasileiro e diz que só quer ser respeitado. “Olhe em volta de nós e veja quantos negros tem aqui”, desafiou, ao lembrar que a população brasileira é composta por 54% de negros, fatia muito mal representada em postos de comando e evidência, e não só na tela da Globo. Confira trechos da nossa conversa.

Meu condomínio
“Eu tenho minha casa, meus amigos, meus filhos. Moro num condomínio grandão onde tem apenas cinco residências com negros. Uma vantagem que a gente leva é que somos atores, minha filha mora ali, a outra mora perto também. Pra mim é importante a participação de todas as etnias de um país. Quando eu vou fazer um personagem, não é só a questão de estar feliz, é ter um salto qualitativo, não é quantitativo.”

Representatividade
“A pesquisa diz que 54% da população brasileira é negra – negra ou afim. Eu não protesto, mas eu gostaria que as coisas fossem além. Cada vez que eu olho para os Estados Unidos e vejo que lá, por duas vezes, houve um presidente negro, sinto falta disso aqui. A cada dois anos eu vou para Nova York. No meu ver, no meu coração, no meu processinho cultural, eu acho que a gente deveria ter uma mistura maior. Por quê? Porque 54% da população é de negros e afins. Não sou eu quem diz isso, é pesquisa. Isso não me machuca, mas me incomoda. Eu saio daqui, vou para os Estados Unidos e de repente, o presidente é negro. Como é que ele, com essas dificuldades todas, e nos Estados Unidos há muito menos negros que aqui, vira presidente? Mas eu não quero só isso, eu quero que estudem, que deem um salto qualitativo, não quantitativo.”

Funcionário da Globo com CLT
“Eu sou fundador da Globo, meu número real como funcionário era 147. Aí, fui virar esperto de não ser trabalhador, virar pessoa jurídica, e quando nós descobrimos, quando morreu uma pessoa e eu vi que não sobrava nada daquilo (contrato de Pessoa Jurídica), vi que não estava legal e voltei a ser funcionário com carteira assinada. Pedi para voltar e eles aceitaram, claro. Mas quando voltei, virei o funcionário de número 134 mil e tanto.”

‘Mania de ser branco’
“O problema (da representatividade negra) não é da Globo. Quando a Globo foi inaugurada, eu era um dos diretores, com Daniel Filho. Tenho 84 anos. Não sou mais nenhum Tarzã,mas ainda faço as minhas coisas, posso caminhar, posso viajar, tenho um barraco em Saquarema, pego o meu carrinho e vou pra lá. Nós, brasileiros, somos inertes, de modo geral. Alguns segmentos negros estão trabalhando, buscando um salto qualitativo, e muita gente tem mania de dizer: ‘ah, esse aí é metido, tem mania de ser branco’. Isso me irrita profundamente.”

Como Eliseu, catador de lixo reciclável na nova novela das sete. Foto: João Miguel Jr./Divulgação

Herança
“Eu tenho três filhos. Falei: ‘Meus filhos precisam aprender uma língua. Minha mulher, mãe dos meus filhos, era advogada, branca, e a minha mulher, que Deus levou, estimulava os meus filhos a estudarem. Os meus três filhos falam inglês. Meu filho morou na Europa, minha filha, Catarina, foi sozinha pra Nova York. Eles falam bem, se defendem bem. Eu sempre disse: tem que falar uma língua e tem que trabalhar,  e tem que acreditar, e tem que respeitar. Tenho três filhos: Maurício, Alda e Catarina. Alda trabalha na Globo e não fui eu quem colocou ela lá. Ela é muito respeitada. Meu filho é ator, tem lá os problemas de saúde dele, epilepsia, a Globo está apoiando, e a minha filha Catarina não quer saber disso, tá casada, com meu netinho, Gabriel, e tem o Israel, o outro netinho, filho do Maurício.”

Complexo
“Falta é a gente ter coragem de estudar, discutir, não ter vergonha de ser negro. Tem tanta gente branca, azul, amarela, que não sabe nada, quando vai discutir, não tem matéria. Imagine você um diretor negro dirigindo uma novela, imagina como é a relação de um negro, diretor de novela, com a equipe. Aconteceu com o Daniel Filho, grande amigo, grande cidadão, dirigíamos juntos uma novela, ‘Irmãos Coragem’, e um dia ele disse ‘tchau, a novela é sua’. Eu falei: ‘meu Deus, além da dificuldade de manter essa direção maravilhosa dele, e sem nenhum complexo, mas nós, brasileiros negros, temos vergonha de ser negros, uma parte tem medo.

Humilhado
“Aquela coisa escravagista que existia ainda está nas costas da gente. Por mais que a gente diga: ‘não, eu tô bem’, está nas costas da gente. A gente, às vezes, quando reage, reage de modo sufocado. Eu sei do que  estou falando, tenho 84 anos e já fui desrespeitado e humilhado em alguns momentos da minha vida, não porque eu não soubesse nada, mas porque sou negro. Um ser humano, num país como o nosso, se não tiver dinheiro pra comprar todos os dias um pão, ele vai se sentir humilhado. Se ele não tiver dinheiro pra comprar uma carninha, ele vai se sentir humilhado. E essa busca do ‘eu sou bacana, eu sou maravilhoso, eu sou capaz’, essa coisa deveria ser mais estimulada.

Igualdade
“Nós somos 54% da população brasileira, eu estou aproveitando pra falar com você e não é pra fazer guerra, é só pra manifestar o desejo e a vontade de ser igual a todos. Muitas vezes uma pessoa negra se sente humilhada e baixa a cabeça e não discute aquilo que ela tenha razão. Ouvir ‘você é uma negra safada’ já acaba com a gente. Nós, brasileiros negros, temos que responder à altura, não é dar soco, não é dar tiro, é responder à altura. Olhe ao nosso redor e veja quantos brancos tem aqui. Eu não tenho medo, sou um cidadão e só quero ser respeitado.”

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Cristina Padiglione

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