Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
Jornalismo&Doc

Globo negocia com apresentadores de esporte liberação para fazer publicidade

Fernanda Gentil e Felipe Andreolli, precedente que motivou abertura de publicidade para jornalistas de esporte

Em meio a essa onda de jornalistas que migram para o entretenimento, alguns com ida e volta esporádica, como será o caso de Tiago Leifert durante a Copa, a direção da Globo negocia com a turma do jornalismo esportivo, por enquanto apenas entre apresentadores, a liberação de seus profissionais para fazerem comerciais.

Sim, é isso mesmo.

A medida representaria o fim de uma era rígida no território que distingue jornalismo de publicidade na TV. Profissionais da notícia, em especial de noticiários tratados como hard news, jamais puderam fazer comerciais, sob pena de perderem seus postos de trabalho, principalmente na televisão, onde a imagem do profissional está diretamente associada à informação que ele dá ao público.

O TelePadi tomou conhecimento que a direção da área já se reuniu com o time de apresentadores para comunicar que eles poderão fazer publicidade daqui em diante. Consultada, a Globo admitiu, por meio da área de Comunicação, que isso está em negociação, mas informa que a questão ainda não está fechada.

Pode até ser que a medida venha cercada de restrições, como não aparecer anunciando produtos nos intervalos dos programas que esses profissionais apresentam. Atores, por exemplo, na Globo, não podem fazer publicidade caracterizados como personagens seus que estão no ar, a fim de não levar o público a confundir o papel fictício com o produto anunciado.

Fora da Globo, há casos notórios que permitem essa cruzada de linha, do jornalismo à publicidade. No terreno do esporte, o caso mais notório é o de Milton Neves, também conhecido, justamente por isso, como “Merchan Neves”.

A Globo, sempre muito rígida nesse quesito, passou a abrigar alguns precedentes para a abertura desse debate. Além de Leifert, que migrou para o entretenimento, tendo já aderido à condição de garoto-propaganda, mas voltará à cobertura esportiva durante a Copa, há o caso de Felipe Andreoli, contratado pela emissora para a área do entretenimento (“Encontro com Fátima”) e migrado para o esporte, sem ter sofrido restrições para continuar a fazer publicidade. Isso gerou, digamos, um “eu também quero” entre seus pares.

Ainda que caiba aqui uma discussão sobre novos modelos de publicidade e das relações de trabalho e seus vencimentos, longe de ser contrária à rediscussão do assunto, convém observar que a abertura dos profissionais de esporte da Globo para propaganda só ratifica a ideia de que a emissora trata o assunto muito mais como negócio e entretenimento do que como notícia. Não fosse isso, caberia discutir também a queda do muro que separa publicidade e Jornalismo nas áreas de economia, cultura e política, por que não? Por que o esporte pode merecer um tratamento que exime seus profissionais de conflitos de interesse, e outras áreas, não?

Na Copa passada, a emissora contratou o ex-craque Ronaldo Nazário como comentarista, sendo ele garoto-propaganda de anúncios nos intervalos dos jogos que ele próprio comentava, além de fazer parte do comitê da Copa no Brasil e de ser, na época, sócio de uma empresa que agenciava parte dos jogadores em campo. Mais conflitos de interesses que o daquele caso, impossível. Assim, diante do episódio Ronaldo, devo admitir que vetar o acesso dos profissionais de esporte aos bons cachês oferecidos pela publicidade beira a hipocrisia.

 

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Cristina Padiglione

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