Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
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‘Eu tinha um programa, mas fui demitido’: Letterman em sua volta pela Netflix

Barack Obama conversa com David Letterman no primeiro programa da série especial da Netflix

Ao se apresentar a uma plateia de espectadores que se levantam de suas cadeiras para recebê-lo em um teatro, David Letterman se apresenta: “Eu tinha um programa na TV, mas fui demitido. Agora eu estou de volta, não exatamente a um programa, mas a … Não sei se vocês já ouviram falar em  uma coisa chamada Netflix. Eu não sei o que é nem quero saber como funciona. Tudo o que eu sei é que quando funciona, o risco de envenenamento por radiação paira na sua casa.”

O público se delicia, saciando a saudade de quem deixou a TV há dois.anos, após 33 anos de expediente.

Mas as pessoas vão mesmo ao delírio, como se estivessem diante de um popstar, quando Letterman anuncia seu primeiro convidado, o “44º presidente dos Estados Unidos, Mr. Barack Obama”, longamente ovacionado pela plateia.

Um dos assuntos que o entrevistador colocou na conversa foi a manipulação da informação operada por internautas russos durante o processo da eleição que levou Donald Trump à Casa Branca.

Obama citou um diálogo do senador americano Daniel Patrick Moynihan, que rebate o falso argumento lançado por muita gente que se vê derrotada em uma discussão: “esta é sua opinião”. “Você pode ter a sua opinião, mas não pode ter os seus próprios fatos”, respondia o senador, segundo o relato de Obama. “Quem assiste à FOX News (canal que lhe fez oposição durante todo o seu governo e agora é bem quisto por Trump) vive em outro planeta, diferente de quem ouve a rádio NPR”, comolerou Obama.

O presidente lembra que sua campanha foi a primeira a se valer das redes sociais, por meio de jovens que voluntariamente compartilhavam as ações e discursos da campanha, mas, na ocasião, não se dera conta do quanto aquilo poderia vir a ser manipulado. Ao citar que algorítimos determinam os conteúdos que cada um recebe em seus feeds de notícias nas redes sociais, notou que esse sistema vai dando a cada um a sua bolha, donde se pode diagnosticar as razões da polarização hoje vigente na política.

“Uma boa ferramenta se virou contra nós”, arremata Letterman.

A conversa toda tem início com uma provocação do entrevistador: “Nós dois deixamos os nossos empregos”.

Obama concorda, interrompendo: “Mas eu não fui demitido”.

Letterman gargalha. “Mas o que eu quero saber é o que você fez no primeiro dia em que não era mais presidente”. “Eu dormi até mais tarde”, conta Obama, “o que me deixou muito feliz”. O presidente diz ainda que passou dez dias com Michelle nas Ilhas Virgens Britânicas. “Eu sentia falta de minha mulher”. Voltou a morar próximo da Casa Branca, na “mesma vizinhança”, e achou ótima a nova rotina, de “ficar em casa tentando entender como a cafeteira funciona”.

Tudo pareceu funcionar meio em câmera lenta, lembra, ao afirmar que o papel do ex-presidente é ficar em casa esperando o telefone tocar. “Não, esse sou eu”, corrigiu-lhe Letterman.

Arrancou risos ao contar que seu representante num possível contrato literário lhe telefonou para marcar uma reunião “agora mesmo”, que “os editores” estavam “ansiosos”. “Que tal amanhã?”, propôs Obama. “Não, vamos demorar umas duas semanas para marcar”, ouviu de volta. “Mas onde eu trabalhava antes, ‘agora mesmo’ significava que se não fosse em duas horas, alguém morreria”, respondeu.

Obama falou sobre o difícil cenário econômico que encontrou no início de seu governo. E disse que o desafio que ainda temos a vencer é como o avanço tecnológico global poderá se mostrar bom para todos. “Há indústrias inteiras e categorias de empregos sendo eliminadas. Os custos de faculdade e assistência médica continuam subindo, embora não tão depressa quanto no início do meu governo. Nesse cenário, se todo o dinheiro vai para um punhado de pessoas no topo, e elas investem em coisas porque querem maximizar seu lucro, formam-se bolhas porque o sistema financeiro começa a ficar super aquecido”.

As conquistas dos negros nos EUA foi outro tema da conversa, que se ocupa ainda da história pessoal de Obama e de sua criação. Em uma entrevista gravada fora do teatro, Obama conversou com o ativista negro e congressista John Lewis, que esteve presente na histórica Marcha de Selma a Montgomery, em 1965, enfrentando a agressão policial, e a quem Obama atribui o papel inspirador para o rumo que tomou na sua carreira

Por fim, contrariou a torcida da plateia por uma possível volta à Casa Branca, ao dizer que mesmo que não houvesse uma Emenda que o proibisse de ser novamente presidente, ele não voltaria, pois Michelle o deixaria e “eu a quero comigo.”

Letterman encerra a entrevista dizendo a Obama: “você é o primeiro presidente que eu realmente respeito”.

A longa barba de Letterman é motivo de piadas de seus convidados ao longo dos seis episódios da série, que entrou na Netflix nesta sexta, dia 12. Obama a chama de “barba bíblica” e George Clooney, convidado do segundo episódio, diz que entende que ele se afastou da TV e se esqueceu de aparar a barba: “agora já pode cortar”, diz Clooney.

Os outros quatro episódios, cada um com 60 minutos de duração e já disponíveis na plataforma, trazem conversas com  Tina Fey, Malala Yousafzai, Howard Stern e Jay-Z.

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Cristina Padiglione

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