Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
Minha novela

Em cena antológica para 1989, Tieta defende sexualidade de Ninette (Rogéria): hoje, no Viva

https://www.youtube.com/watch?v=-O94u9MARpY&t=192s

Cena antológica para 1989, em Tieta, dá uma boa dimensão do bem que Rogéria, nascida Astolfo, fez pelo respeito à diferença de gêneros no Brasil. Programado para ir ao ar bem nesta quarta, dois dias após a morte da atriz e ex-vedete, na reprise da novela pelo canal Viva, o texto é de Aguinaldo Silva, mas é por meio da figura de Rogéria, ali representando seu primeiro papel em novela – o travesti Ninette – que o autor expressa um diálogo pronto para fazer o público refletir sobre sexualidade “fora dos padrões”, hoje diplomaticamente tratada como “diferença de gêneros”.

Na ocasião, Ninette, amiga de Tieta, acaba de desembarcar em Santana do Agreste, e logo cai na boca do povo, reconhecida que é como homem em trajes e trejeitos femininos. Aqui, uma reprodução da conversa entre tia e sobrinho, Tieta e Ricardo, ambos vivendo um amor incestuoso, nas atuações de Betty Faria e Cássio Gabus Mendes, em que ela tenta mostrar a ele que as pessoas são diferentes e devem ser respeitadas e valorizadas nas suas diferenças. É o tipo do debate educador para o assunto, e não só para a época em que foi ao ar: vale, ainda hoje, para aplacar a fúria da homofobia.

Eis o diálogo:

_ Tieta, um homem é um homem. Uma mulher é uma mulher. Deus criou o sexo com um papel definido, uma função.
_ Ô, xente, quem não se encaixa nesse papel, nessa função, tu acha que a gente deve fazer o quê? Afogar no mar?
_ Não, a gente deve dar todo tipo de ajuda pra essa pessoa se corrigir.
_ Que que é isso, “se corrigir”?
_ Ora, pra que essas pessoas se tornem normais, como as outras.
_ Mas cabrito, normal, me olhe, sinceramente e me diga: de perto alguém é normal?
_ Tieta, a gente é normal!
_ Aos teus olhos, aos teus olhos! Porque de fora, essa gente toda nos condenaria, se soubesse do nosso amor. O nosso amor não é um amor normal.
_ Tu não pode comparar a gente com Ninette.
_ Ô xente, por que não?
_ Tu acha certo que alguém seja como ela, tão diferente dos padrões?
_ Mas o que é que tu chama de padrão de comportamento? Ricardo, o que é que tu quer? Quer que todo mundo seja igual, que se comporte do mesmo jeito? Que siga as mesmas regras? Não. O ser humano não foi feito por decreto, ah, que isso? E eu lá sou máquina, por acaso? E a gente sai da fábrica tudo bonitinho, enfileiradinho, assim, um atrás do outro, tudo exatamente igual, é isso?
_ Não, eu não acho que todo mundo é igual.
_ Mas acha que todo mundo tem que se comportar do mesmo jeito. Não admite não admite que uma pessoa não viva dentro do jeito que tu considera normal.
_ Mas ela é muito diferente!
_ Mas diferente por que, Ricardo? A gente não pode julgar as pessoas desse jeito! Quem é tu pra julgar? Quem sou eu pra julgar os outros?
_ Tieta, a gente vive numa sociedade!
_ Uma sociedade que quer que todo mundo se comporte do mesmo jeito, que não aceita que uma pessoa siga o seu impulso e faça o que a natureza manda.
_ Mas não pode ser assim! Imagina como seria se as pessoas saíssem por aí seguindo seus impulsos!
_ Ricardo, quando tu largou o seminário tu não tava seguindo o impulso? Se tu tivesse continuado naquela vida tava até hoje infeliz. Então, cada um tem seu próprio impulso. Tem é que respeitar a liberdade dos outros, senão, quem vai respeitar a tua?
_ Tu tá comparando de novo.
_ Tô,  tô porque eu sou tua tia, tu é meu sobrinho, a gente se ama escondido, porque os outros não aceitam nosso tipo de amor. Se essa cidade inteira soubesse, ia nos condenar do mesmo jeito que condenam Ninette. E tu acha que no nosso caso eles iam estar certos?
_ É claro que não.
_ Então, Cado, por que tu quer que condene Ninette? Tu acha certo condenar Ninette? Abra um pouco seu coração e aceite as pessoas como elas são, aí, eles vão te aceitar como tu é. E não me venha com esse papo que tu é normal, porque normal ninguém é. No fundo, no fundo, todo mundo tem um segredozinho escondido, um pecado, uma mania, uma tara, sei lá. Quem não tem vontade de mandar tudo se explodir e seguir o seu impulso, mas não faz. Não faz porque tem medo do que o povo vai dizer. Aí vive reprimido, vive infeliz, como tu vivia antes de aceitar o nosso amor.
_ Tieta, você é uma mulher, eu sou um homem. Tá no Evangelho: crescei e multiplicai-vos.
_ Gente, é só pra isso que sexo serve? Pra multiplicar? Então a gente vai pra cama só pra reproduzir? É isso, Cardo? Não vai pra ter prazer? Cada um que encontre sua maneira de amar, de ter prazer, de viver. Só porque não é igual a tua maneira, tu vai achar que tá errada? Se tu não entende, tu julga, vai julgar e vai condenar? Abra o seu coração, a sua cabeça.
_ Eu preciso pensar. É novo demais pra mim.
_ Pense, pense bastante. E não tenha medo nenhum de voltar atrás, de se arrepender, muito pelo contrário, é sinal de coragem.
_ Eu preciso pensar. T^muito confuso. Boa noite.

 

 

Em tempo: Tieta vai ao ar às 15h30, com reapresentação do capítulo à 0h30.

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