Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
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Democracia experimentada por Pedro Cardoso é obra da TV ao vivo

Como disse a apresentadora do “Sem Censura”, Katy Navarro, a Pedro Cardoso, que protestou contra o governo e a direção da emissora em cena ao vivo, na TV Brasil, “isso é uma democracia”. Mas é certo que a emissora não levaria ao ar uma edição previamente gravada que incluísse as declarações dele feitas na tarde desta quinta-feira, 23. Até hoje, a emissora pública, que se sustenta somente com verba do governo federal, só exibiu gritos de “Fora Temer” em imagens ao vivo, e o mesmo aconteceu com outros presidentes em exercício na tela da emissora; o mandatário, mesmo nas gestões mais independentes, sempre foi mais poupado que a oposição.

Da mesma forma, a Globo nunca levou ao ar imagens que não fossem de transmissões ao vivo com aqueles cartazes de protesto contra si, estampando frases como “Globo golpista”, por exemplo. Até isso é da democracia: uns de 100 milhões, como diz a nova campanha da emissora, discordam da linha editorial, mas quem faz o editorial também tem a opção de ampliar ou não essas vozes contrárias, desde que a transmissão não seja ao vivo.

É justamente isso que faz da TV ao vivo uma droga mais emocionante que a TV editada e pós-produzida, com seus mil filtros e recursos tecnológicos. A TV ao vivo tem mais temperatura, tem mais sinceridade, e por mais truques e filtros presentes por trás das câmeras, tem mais verdade.

Aliada à facilidade que hoje se tem para reproduzir e replicar à exaustão uma imagem, a TV ao vivo é quase uma libertação nesse universo onde profissionais de marketing ensaiam cada vírgula a ser dita por personalidades de toda espécie, de políticos a Youtubers, passando por atores, esportistas e cantores. Isso, sim, é democracia.

O protesto de Pedro Cardoso

Presente ao “Sem Censura”, na TV Brasil, na quinta, 23, o ator resolveu testar a autenticidade do título do programa e anunciou que não responderia a nenhuma pergunta em razão da greve dos funcionários da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), da qual a TV Brasil é o principal braço. Pensou em nem entrar em cena, mas resolveu aparecer no cenário e se sentar ao lado dos demais convidados para também protestar contra um comentário do presidente da EBC, Laerte Rímoli, que ironizou recente declaração da atriz Taís Araújo sobre racismo.

“Eu não vou responder essa pergunta – e a nenhuma outra – porque quando eu cheguei aqui, eu encontrei uma empresa que está em greve. E não participo de programa em empresas que estão em greve. Eu vim vim sentar aqui porque além da greve, que não me cabe julgar, eu não estou a par, também não me cabe emitir opinião sobre quem está fazendo a greve ou quem está aqui trabalhando. Cabe a mim o maior respeito a todos vocês, aos que estão parados e aos que estão trabalhando. Mas eu, diante deste governo que está governando o Brasil, eu tenho muita convicção de que as pessoas que estão fazendo esta greve provavelmente estão cobertas de razão. Então, eu não vou falar do assunto que eu vim aqui falar e de nenhum outro. O que eu soube também quando cheguei aqui é que o presidente dessa empresa, que é uma empresa que pertence ao povo brasileiro, fez comentários extremamente inapropriados a respeito do que teria dito uma colega minha, onde a a presença do sangue africano é visível na pele. Porque o sangue africano está presente em todos nós, e em alguns de nós, está presente também na pele, mas em todos nós ele está. Então, se esta empresa, que é casa do povo brasileiro tem na presidência uma pessoa que fala contra isso, eu não posso falar do assunto que eu vim falar aqui. Eu tenho imenso respeito pra todos vocês que estão aqui, eu vou me levantar, em respeito aos grevistas, e eu vou embora”.

Neste momento, a apresentadora disse compreender perfeitamente a opinião do ator, agradeceu a sua presença e ressaltou que “vivemos numa democracia”: “nós vamos para o intervalo”, anunciou.

Em nota, a EBC afirmou que “Esta postura da EBC é o resultado da diretriz jornalística e profissional implementada pela atual direção da Empresa Brasil de Comunicação. Nossa programação é a prova viva – e ao vivo – de que esta empresa de comunicação pública é plural, é democrática, acolhe a diversidade de opinião e respeita a lei, inclusive o direito de greve.”

Como o ator é uma figura que normalmente vive personagens de comédia, o início de sua fala ainda causou uma certa surpresa entre os demais convidados do programa, como se ele fosse, a qualquer momento, endossar uma piada. Mas o tom logo foi se mostrando muito sério e o silêncio dos demais permitiu que ele concluísse sua fala tranquilamente, até que a apresentadora interviesse.

Veja o vídeo da cena:

 

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Cristina Padiglione

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