Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
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Com conhecimento, Rafinha Bastos ri de ídolos da web e de jornalistas em nova série

Paloma Duarte e Rafinha Bastos: parceria afinada com bons diálogos/ foto: Edu Viana/Divulgação

Programa bom não depende de dinheiro, pirotecnia ou superprodução. Às vezes, aliás, dinheiro demais até atrapalha (como penso ser um dos grandes problemas do “Adnight”, que Marcelo Adnet tornou pior, este ano, ao tentar reformar a ideia daquela primeira temporada: sobra superprodução e falta graça).

Mas o assunto aqui é outro e vai na contramão do “Adnight”.

Vi os três episódios já disponíveis no Multishow Play da nova série de Rafinha Bastos, “Eu, Ela e Um milhão de Seguidores”, que chega à TV na noite desta terça, dia 5. Poderia ter visto um só e já escrever a respeito, mas confesso que me interessei pelo segundo e depois pelo terceiro, com satisfação. Não sou, afinal, o Michel, crítico de TV encarnado por Rafinha na série, sujeito que vive de fazer críticas de TV, mas mal vê os programas que avalia. Embora eu não seja aquela figura, divirto-me porque ela é real, existe, sim, e conheço alguns exemplares parecidos.

A situação mais patética, de todo modo, está voltada para os chamados influenciadores digitais, essa turma de Youtubers que ganha zilhões de acordo com os seguidores que acumula em redes sociais, muitas vezes usando a própria vida como uma espécie de “Big Brother”, onde a moeda é produzir cenas íntimas para que todo mundo possa dar a tal espiadinha. Há também um olhar divertido sobre as tradições judaicas.

O protagonista é tudo isso: jornalista, judeu e influenciador digital que acumula milhões de seguidores na web (embora não exatamente expondo sua intimidade, como acontece na série, vitimado pela obsessão da mulher no assunto). Esse retrato, por si só, já avaliza a piada e compõe um bom retrato de humor, com bom gosto e repertório.

O texto é muito bom, há qualidade nos diálogos, acredite, mesmo lembrando que estamos no Multishow, onde tudo precisa de uma claque de gargalhadas para piadas pastelão bem mastigadas, ao modo “Vai que Cola”.

Rafinha, como Michel, é um afago: jornalista temido publicamente e tão frágil na intimidade do hipocondríaco exposto pela mulher, Luli, afinadíssima pela voz de Paloma Duarte, para o desespero da mãe judia deliciosamente vivida por Grace Gianoukas.

Com esse elenco, dificilmente não teríamos um resultado bacana, mas “Eu, Ela e Um Milhão de Seguidores” vai além disso: supera a média das séries produzidas para a TV paga, um segmento em geral feito de orçamentos modestos e onde todo o resto também costuma ser modesto, quando não pífio.

Aqui, não. Temos bom texto, boa direção, boas atuações, ainda com Rodrigo Lopez e Sâmia Pascotto, sem falar na luxuosa participação de Raul Barreto como jornalista amigo do protagonista. É ele o autor do diagnóstico sobre a crise nos jornais impressos, conclusão tirada não da escassez de leitores do produto, mas da certeza de que ninguém mais usa jornal para pegar cocô de cachorro. Bem que eu deveria chorar por isso, mas defendo a arte de saber rir de si como busca essencial para ser feliz.

Só mais um adendo: mencionei aqui o termo “produção modesta” só para ressaltar que não há excessos ou exagero de gastos, com desfile de cenários ou sequências de ação desnecessárias. Ou seja, não vai aí nenhum demérito ao acabamento, ao contrário, tudo funciona muito bem em cena, nem mais nem menos do que é preciso para acomodar todos os elementos acima valorizados. O que agonia um crítico ou qualquer telespectador é ver produções que se esmeram na infra-estrutura para ocultar a falta de repertório e bom desempenho.

A série é idealizada pela produtora de Rafinha Bastos, a Crazy Monkey, com direção de Calvito Leal e Duda Vaismann, com base em textos da craque Tati Bernardi. O roteiro é assinado por Ana Reber, Chico Felitti, Ricky Hiraoka  e Jacquer Fux, sob o comando de Pedro Coutinho e José francisco Tapajós.

Serão 15 episódios diários, de segunda a sexta, às 22h, a partir de amanhã, que valem ser vistos.

 

Cotação: Muito bom

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Cristina Padiglione

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